
Lucas passou a vida inteira mantendo a cabeça baixa e o coração fechado, principalmente no que diz respeito ao emprego da avó na escola. Mas na noite do baile de formatura, uma simples escolha o força a decidir o que realmente importa… e quem realmente merece ser visto.
Fui morar com a vovó Doris quando tinha três dias de vida. Minha mãe, Lina, havia falecido logo após me dar à luz… Nunca a conheci, mas a vovó me disse que ela me segurou uma vez.
“Ela fez sim, Lucas”, dizia a avó.
“Sua mãe te segurou por três minutos antes de sua pressão arterial cair. Esses três minutos te sustentarão por toda a vida, meu bem.”
E quanto ao meu pai? Bem, ele nunca apareceu. Nem uma vez, nem mesmo em um único aniversário.
Eu fui morar com a vovó Doris quando tinha três dias de vida.
A vovó Doris tinha 52 anos quando me acolheu. Desde então, ela trabalhava à noite como zeladora no colégio e fazia as panquecas mais fofinhas todos os sábados de manhã. Ela lia livros usados numa poltrona com o enchimento saindo pelas costuras, imitando todas as vozes, e fazia o mundo parecer grande e cheio de possibilidades.
Ela nunca agiu como se eu fosse um fardo.
Não quando eu tinha pesadelos e a acordava gritando.
Ela nunca agiu como se eu fosse um fardo.
Não quando eu mesma cortei meu cabelo com a tesoura de costura dela, fazendo minhas orelhas parecerem muito maiores. E definitivamente não quando meus sapatos ficaram pequenos mais rápido do que o salário dela conseguia acompanhar.
Para mim, ela não era apenas uma avó. Ela era uma aldeia inteira em uma só pessoa.
Acho que é por isso que nunca contei a ela sobre as coisas que as pessoas diziam na escola, principalmente depois que descobriram que minha avó era a zeladora da escola.
Ela era uma aldeia de uma só pessoa.
“Cuidado, o Lucas cheira a água sanitária”, diziam os meninos, franzindo o nariz.
Não contei para a vovó sobre o jeito que me chamavam de “Menino do Esfregão” quando achavam que eu não podia ouvir.
E a forma como encontrei leite ou suco de laranja derramado no meu armário com um bilhete colado com fita adesiva:
“Espero que você tenha trazido seu balde, Garoto do Esfregão.”
Se a vovó sabia disso, não me disse nada. E eu me esforcei ao máximo para mantê-la longe dessas bobagens.
“Espero que você tenha trazido seu balde, Garoto do Esfregão.”
A ideia de ela sentir vergonha do próprio trabalho? Isso era a única coisa que eu não suportava.
Então, sorri. Fingi que não importava. Cheguei em casa e lavei a louça enquanto ela tirava as botas, aquelas com as solas rachadas e minhas iniciais gravadas na borracha.
“Você é um bom menino, Lucas”, disse ela. “Você cuida muito bem de mim.”
“Porque você me ensinou que essa é a única maneira de ser, vovó”, respondi.
A ideia de ela sentir vergonha do seu trabalho?
Jantávamos juntos na nossa pequena cozinha, e eu a fazia rir de propósito. Aquele era o meu refúgio.
Mas estaria mentindo se dissesse que aquelas palavras não me afetaram. Ou que não estava contando os dias para a formatura, para poder recomeçar do zero.
A única coisa que tornava a escola suportável era a Sasha.
Mas estaria mentindo se dissesse que as palavras não me afetaram.
Ela era inteligente, confiante e engraçada de um jeito seco e peculiar. As pessoas achavam que ela era apenas bonita — e ela era, de um jeito que não parecia que ela se esforçava para ser bonita —, mas elas não sabiam que ela passava os fins de semana ajudando a mãe em casa e controlando o dinheiro das gorjetas em um bloco de notas amarelo.
A mãe dela era enfermeira, trabalhava em turnos duplos e nem sempre comia. Elas tinham um carro pouco confiável, o que as obrigava a usar o ônibus com muita frequência.
“Ela disse que os muffins da cantina são melhores do que os das máquinas de venda automática do hospital”, disse Sasha, rindo sem chegar a sorrir.
“O que já diz muito sobre as máquinas de venda automática.”
A mãe dela era enfermeira, trabalhava em turnos duplos e nem sempre comia.
Acho que foi por isso que eu e a Sasha nos demos tão bem. Nós duas sabíamos o que era viver à margem dos privilégios alheios.
Ela conheceu a vovó Doris uma vez, quando estávamos na fila do refeitório.
“Essa é a sua avó?”, perguntou ela, apontando para a avó, que segurava uma grande bandeja com caixinhas de leite pequenas, com o esfregão encostado na parede atrás dela.
Sabíamos como era viver por perto.
os limites do privilégio alheio.
“Sim, é ela”, assenti. “Vou te apresentar quando estivermos mais perto dela.”
“Ela parece ser o tipo de pessoa que serve mais uma porção mesmo quando você já está satisfeito”, disse Sasha, sorrindo.
“Ah, ela é pior”, eu disse. “Ela vai te fazer uma torta sem motivo nenhum.”
“Eu já a amo”, disse Sasha, sorrindo.
“Sim, é ela”, assenti com a cabeça.
O baile de formatura chegou mais rápido do que eu esperava. As pessoas comentavam sobre limusines, bronzeamento artificial e corsages caríssimos. Eu evitava o assunto sempre que possível.
Sasha e eu estávamos passando mais tempo juntas nessa época. Todo mundo presumia que íamos juntas, e acho que ela também — até que um dia, depois da aula, ela me alcançou lá fora.
“Então, Luc”, disse ela, colocando a mochila roxa em um ombro. “Quem você vai levar ao baile?”
Evitei o assunto sempre que possível.
Hesitei, mordendo o lábio.
“Já tenho alguém em mente”, respondi simplesmente.
“Alguém que eu conheço?”, perguntou ela, arqueando as sobrancelhas.
“Sim, acho que sim”, respondi com cautela. “Ela é importante para mim, Sasha.”
“Alguém que eu conheço?”, perguntou ela, arqueando as sobrancelhas.
Eu sabia o quão… evasiva eu estava sendo. Sabia que, de alguma forma, eu tinha acabado de magoar uma das pessoas de quem eu mais gostava. Mas, como eu disse para a Sasha, isso era importante para mim.
“Certo. Bom… que bom para você”, disse Sasha. Seus lábios se curvaram num gesto entre um sorriso e uma pergunta.
E depois disso? Sasha não tocou mais no assunto do baile de formatura.
Eu sabia o quão… evasiva eu estava sendo.
Na noite do baile de formatura, a vovó estava no banheiro, segurando o vestido floral que usara pela última vez no casamento da minha prima.
“Não sei, querida”, murmurou ela. “Não tenho certeza se isso ainda combina comigo.”
“Você está linda, vovó”, eu disse.
“Vou ficar de lado, né? Não quero te constranger. Posso ficar em casa, Lucas”, disse ela. “A escola contratou três faxineiras para a noite, para que não haja problemas durante o baile. Posso ter minha noite de folga aqui mesmo, na frente do sofá.”
“Não quero te constranger.”
“Eu posso simplesmente ficar em casa, Lucas.”
“Vovó, você não vai me envergonhar. Prometo. Além da formatura, este é o último evento escolar da minha vida. Quero que você esteja lá!”
Vovó me olhou pelo espelho. Eu sabia que ela estava hesitante em vir ao baile. Mas desta vez… eu precisava dela lá.
Ajudei-a a colocar os brincos — pequenas folhas de prata que ela usava em todas as ocasiões especiais desde que eu tinha sete anos — e alisei a gola do seu casaco de malha.
Eu precisava dela lá.
Ela parecia nervosa, como uma convidada em uma festa para a qual não havia sido devidamente convidada.
“Respire, vovó”, eu disse enquanto ela ajeitava minha gravata. “Isso vai ser ótimo.”
O ginásio estava transformado. Luzes brancas em forma de cordão pendiam em argolas pelo teto. Havia prêmios de papel divertidos e uma cabine de fotos improvisada com adereços.
“Isso vai ser ótimo.”
Sasha ganhou o prêmio de “Maior Probabilidade de Publicar um Livro Proibido”, e eu ganhei o de “Maior Probabilidade de Consertar Seu Carro e Seu Coração”.
Revirei os olhos, mas ela riu. Mesmo lá no fundo, ouvi a risada carinhosa da minha avó.
Após a entrega do último prêmio, as luzes se apagaram e a música aumentou de volume. Casais começaram a se formar e a pista de dança se encheu rapidamente.
“Então… onde está seu encontro?” Sasha olhou para mim.
“Com grandes chances de consertar seu carro e seu coração.”
“Ela está aqui”, eu disse, percorrendo o salão com o olhar até avistar a vovó perto da mesa de refrescos.
“Você trouxe sua avó?”, perguntou Sasha, com voz suave e curiosa, sem tom de julgamento.
“Eu te disse, Sasha. Ela é importante.”
Então me afastei, atravessei o salão e parei em frente à vovó Doris.
“Você trouxe sua avó?” perguntou Sasha.
“Você dançaria comigo?”, perguntei.
“Oh, Lucas…” ela começou, levando a mão ao peito.
“Só uma dança, vovó.”
“Não sei se me lembro como, querida”, disse ela, hesitante.
“A gente dá um jeito”, eu disse, mexendo os pés.
“Você dançaria comigo?”, perguntei.
Saímos para a pista e, por alguns segundos, pareceu um momento perfeito. Até que as risadas começaram.
“Impossível! Ele levou o zelador como acompanhante?”
“Que nojo.”
“Lucas é patético! Que coisa horrível!!”
Alguém perto da mesa de lanches deu uma risada tão alta que o eco se fez abafar pela música. Consegui ouvir o som de tênis arrastando no chão da quadra enquanto algumas cabeças se viravam em nossa direção.
“Sem chance!
Ele levou o zelador como acompanhante?
“Você não tem uma namorada da sua idade?” gritou outra voz. “Isso é muito errado.”
“Ele está dançando com o zelador!”
Senti a vovó Doris se enrijecer ao meu lado. Sua mão, que estava quente na minha até um instante atrás, ficou imóvel. Os cantos do seu sorriso se curvaram para baixo antes que ela pudesse impedi-los. Ela deu um passo para trás, o suficiente para que eu sentisse o espaço entre nós mudar.
“Você não tem uma namorada da sua idade?” gritou outra voz.
“Meu bem”, disse ela baixinho. “Está tudo bem. Vou para casa. Você não precisa de tudo isso. Você precisa aproveitar a noite.”
Ela me lançou um olhar suave e apologético, como se fosse ela quem tivesse feito algo errado.
Algo dentro de mim se encaixou. Não exatamente raiva — apenas uma espécie de clareza que eu não sabia que tinha até aquele momento.
“Não”, eu disse. “Por favor, não vá.”
“Você não precisa de tudo isso. Você precisa aproveitar a noite.”
Olhei em volta do ginásio. Cada mesa, cada canto, cada luzinha cintilante parecia se fechar. As pessoas tinham parado de dançar. Algumas cochichavam. Sasha estava encostada na parede, nos observando, com uma expressão indecifrável.
“Você me disse uma vez que me criou para saber o que importa. Bem, isto importa”, eu disse, voltando-me para a vovó.
Ela piscou, com a boca entreaberta.
“Já volto”, eu disse.
As pessoas pararam de dançar.
Então atravessei o salão, desviando dos casais e indo direto para a cabine do DJ. O Sr. Freeman, nosso professor de matemática que virou DJ nas horas vagas, pareceu surpreso quando me aproximei.
“Lucas? Aconteceu alguma coisa?”
“Preciso do microfone”, eu disse, acenando com a cabeça uma vez.
Atravessei o salão, desviando-me dos casais…
Ele hesitou por um instante, depois me entregou. Eu mesma desliguei a música. O cômodo ficou em silêncio, como se alguém tivesse arrancado o som do ar.
“Antes que alguém ria ou faça piada de novo… deixe-me dizer quem é essa mulher”, eu disse, respirando fundo.
Olhei para a vovó, que ainda estava de pé sozinha, com os braços soltos ao lado do corpo.
O silêncio tomou conta da sala.
“Esta é a minha avó, Doris. Ela me criou quando ninguém mais o faria. Ela esfregava as salas de aula ao amanhecer para que vocês pudessem sentar em cadeiras limpas. Ela se esforçou muito para limpar os vestiários para que vocês pudessem tomar banho em cabines limpas. Ela é a pessoa mais forte que eu conheço.”
Havia um silêncio tão profundo que eu conseguia ouvir o zumbido do ventilador de teto.
Encontrei Anthony num canto, com o rosto corado. Lembrei-me de quando a avó o encontrou bêbado no vestiário há dois anos — alguém tinha contrabandeado uma garrafa de alguma coisa para a escola. Ela ajudou-o a limpar-se, levou-o para casa em segurança e nunca disse uma palavra sobre o assunto.
“Ela me criou quando ninguém mais o faria.”
O pai dele era membro do conselho escolar.
Deixei o silêncio se instalar.
“E se você acha que dançar com ela me torna patético”, fiz uma pausa, “então eu realmente sinto pena de você.”
Quando me virei para minha avó, seus olhos estavam marejados.
Deixei o silêncio se instalar.
Caminhei até lá e estendi a mão novamente.
“Vovó”, eu disse. “Posso ter esta dança?”
Por um instante, ela ficou imóvel.
Então ela assentiu com a cabeça.
Ela colocou a mão dela na minha.
Por um instante, ela ficou imóvel.
A princípio, apenas uma pessoa aplaudiu. Depois, outra. E, de repente, o som varreu a sala como uma onda. O riso desapareceu. Tudo o que restou foram os aplausos.
A avó cobriu a boca com a mão livre, enquanto lágrimas silenciosas escorriam por suas bochechas.
Dançamos sob as luzes de corda, enquanto toda a sala assistia — não com escárnio, mas com respeito.
O riso havia desaparecido.
Só restou aplausos.
Pela primeira vez na vida, ela não era invisível.
Ela não era “a faxineira”.
Ela era uma pessoa honrada.
Mais tarde naquela noite, Sasha se aproximou de mim segurando dois copos de papel com ponche. Ela estendeu um deles, sorrindo daquele jeito que ela fazia quando tentava não dar muita importância a algo que, de qualquer forma, parecia importante.
Pela primeira vez na vida, ela não era invisível.
“Aqui está”, disse ela. “Você mereceu.”
Peguei a xícara, nossos dedos se roçando levemente.
“Para que fique registrado”, acrescentou ela, “acho que essa foi a melhor escolha de par para o baile de formatura que alguém fez o ano todo.”
“Obrigado”, eu disse, e era sincero.
“Aqui”, disse ela.
“Você mereceu.”
Ela olhou para a avó do outro lado da sala, que ria com duas professoras perto da mesa de sobremesas. Ela estava radiante de um jeito que eu nunca tinha visto antes. Não como se estivesse tentando se enturmar.
Como ela já fez.
“Minha mãe vai adorar essa história”, disse Sasha. “Ela com certeza vai chorar. Só para avisar.”
“Eu chorei”, admiti. “Eu não estaria vivo se não fosse por ela.”
Como ela já fez.
“Eu também”, ela respondeu. “E isso foi antes mesmo da música lenta começar.”
Ela deu um leve toque no meu braço com o ombro.
“Sabe”, disse ela, “eu gosto muito da sua avó.”
“Eu sei”, concordei. “Ela também gosta de você.”
Ela deu um leve toque no meu braço com o ombro.
Sasha sorriu novamente.
Na segunda-feira seguinte, Gran encontrou um bilhete dobrado e colado com fita adesiva em seu armário na sala dos professores.
“Obrigado por tudo.
Sentimos muito, vovó Doris.
— Quarto 2B.”
Ela guardou no bolso do casaco durante toda a semana.
No sábado seguinte, ela vestiu seu vestido florido enquanto fazia panquecas. Simplesmente porque quis. E eu sabia que ela entraria na minha formatura com orgulho.
“Obrigado por tudo.”
Se isso acontecesse com você, o que você faria? Adoraríamos saber sua opinião nos comentários do Facebook.
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