
Se você veio do Facebook, provavelmente está curioso para saber o que o encanador removeu da minha parede e o que isso tem a ver com meu filho. Prepare-se, porque a verdade por trás daquele cheiro pútrido é muito mais chocante e perigosa do que você pode imaginar.
Eu achava que conhecia cada canto da minha casa, cada rachadura nas paredes, cada tábua do assoalho que rangia sob meus pés. E, mais importante, achava que conhecia todos os segredos do meu filho, Juan. Mas eu estava enganada. Completamente enganada. Tudo começou com um cheiro. No início, era sutil, quase imperceptível, como mofo antigo, daquele tipo que se infiltra pelas frestas das casas velhas em dias de chuva persistente. Culpei o inverno, a falta de ventilação, a minha própria imaginação.
Mas o tempo passou, e o cheiro se transformou. Tornou-se mais denso, mais orgânico, mais… pútrido. Um fedor adocicado e nauseante que arranhava a garganta e impregnava o fundo do nariz. Minha casa, meu refúgio, estava se tornando uma armadilha olfativa. Pensei no lixo, sim, o lixo de sempre, algum pedaço esquecido na lixeira. Depois, em um animal morto. Um rato, talvez, preso em alguma fresta do telhado ou sob o assoalho. Meu marido, Carlos, subiu ao sótão várias vezes, verificou as calhas, procurou com uma lanterna sob a varanda. Nada. O cheiro, porém, persistia tenazmente na parede que dividia a sala de estar com o quarto de Juan, meu filho de dezesseis anos.
Juan. Ele, sempre tão quieto, tão perdido em seu mundo de videogames e livros de fantasia, apenas dava de ombros quando eu perguntava, com um olhar evasivo que eu, em minha ingenuidade, atribuía à adolescência. “Não sei, mãe. Tem um cheiro estranho, sim. Mas não é minha culpa.” Sua voz era monótona, quase inaudível. Eu queria acreditar nele. Eu precisava acreditar nele. Juan havia mudado muito no último ano; ele se tornara mais distante, mais retraído. Pensei que fosse a idade dele, uma rebeldia normal. Agora, percebo que havia sinais, pequenas rachaduras em seu comportamento, que eu havia ignorado.
O ambiente em casa tornou-se insuportável. Os jantares, antes momentos de relativa paz, transformaram-se num verdadeiro suplício. O apetite desaparecia ao primeiro sopro daquele ar viciado. Janelas escancaradas, os aromatizadores de ambiente mais potentes, velas perfumadas… nada conseguia dissipar a presença fétida que tomara conta da nossa casa. O cheiro era tão denso que parecia impregnar a minha pele, impregnar as minhas roupas, o meu cabelo. Sentia-me suja, contaminada por algo invisível.
Desesperada, com Carlos já resignado e franzindo a testa sempre que entrava no quarto, decidi chamar um encanador. Minha última esperança. Convencida de que era um cano estourado, um vazamento de esgoto, algo lógico, algo com uma explicação técnica e, acima de tudo, uma solução. O Sr. Ramírez, um homem mais velho com mãos calejadas e rosto severo, chegou no dia seguinte com sua caixa de ferramentas. Seus olhos pequenos e penetrantes percorreram o cômodo, demorando-se na parede que eu havia indicado e depois em Juan, que passava de cabeça baixa em direção ao seu quarto, evitando contato visual.
“O cheiro é forte, senhora”, resmungou ele, com a voz rouca. “E não cheira a esgoto. Isto é… diferente.” Ele pegou um pequeno martelo e começou a bater na parede com golpes secos e precisos, ouvindo atentamente o eco, a mudança na ressonância. Seus movimentos eram lentos, deliberados, imbuídos de uma experiência que me causou uma mistura de alívio e um novo tipo de inquietação. Ele parou bem no centro da parede que dava para o quarto de Juan, onde o cheiro parecia ser mais intenso. Olhou para mim com uma expressão séria, quase grave. “Há algo aqui, senhora. E não é água”, disse ele em voz baixa, quase um sussurro, mas um sussurro que ecoou no silêncio do quarto.
Meu coração começou a bater descontroladamente. Uma pulsação surda batia contra minhas costelas. Um arrepio gélido percorreu minha espinha. O encanador pegou uma pequena ferramenta, uma espécie de cinzel, e delicadamente, mas com firmeza, fez um pequeno furo na parede. Em seguida, com uma serra manual, ele o alargou cuidadosamente, removendo pedaços de gesso e tijolo. A escuridão dentro da parede foi revelada e, com ela, um cheiro fétido, mais concentrado, mais insuportável do que nunca. Tive que cobrir a boca com a mão para não vomitar.
Quando ele mergulhou a mão enluvada na escuridão úmida, seu rosto, antes impassível, se transformou. Ficou branco como papel, seus lábios se comprimiram em uma linha fina e sua respiração tornou-se audivelmente rápida. Ele retirou a mão trêmula, segurando algo embrulhado em um saco plástico preto, manchado e úmido. O saco, embora lacrado, não conseguia conter o cheiro pútrido que emanava de dentro. Meus olhos foram atraídos para ele e para a expressão de puro horror no rosto do encanador. Ele olhou para mim, seus pequenos olhos agora arregalados, cheios de um terror que me atravessou a alma.
Meu coração parou. Não podia ser. O que ele tinha tirado da parede? A sacola era pequena, mas estava cheia. E por que o olhar do encanador dizia que a vida do meu filho nunca mais seria a mesma? Nem a minha? Um arrepio percorreu minha espinha. A sacola pingou um líquido escuro no chão impecável. Senti um grito abafado na garganta, mas nenhum som saiu. Apenas o eco do meu próprio terror.
O encanador, Sr. Ramirez, deixou cair a sacola com um baque sobre o jornal que havia estendido no chão. Suas mãos tremiam visivelmente enquanto ele tirava as luvas, sua repulsa palpável. “Senhora”, disse ele com a voz quase num sussurro rouco, “isso não é um problema de encanamento. Isso é… outra coisa.” Ele esfregou a testa, os olhos ainda fixos na sacola, como se esperasse que ela ganhasse vida.
Ajoelhei-me lentamente, com a mente em turbilhão de pânico. O cheiro era agora insuportável, como carne podre misturada com algo metálico. Meus olhos pousaram na sacola. Era um simples saco de lixo preto, mas um pedaço de pano sobressaía. Linho grosso bege, manchado com uma substância escura e seca. Com as mãos trêmulas, os dedos mal obedecendo aos meus comandos, puxei a borda da sacola. O que apareceu foi um volume. Não era o que eu esperava. Não era um animal. Era um pequeno baú de madeira antigo, com detalhes em metal corroído e mostrando sinais de ter sido enterrado ou escondido por muito tempo. O fedor não vinha do próprio baú, mas de algo que o envolvia, algum tipo de embalagem adicional.
Com um nó no estômago, retirei mais plástico. O baú estava envolto em várias camadas, e entre elas, pude ver o que estava causando o cheiro: os restos mortais de um rato grande, ressecados e parcialmente decompostos, presos entre o plástico e a madeira, ou talvez colocados ali deliberadamente como algum tipo de barreira macabra ou aviso. O Sr. Ramirez deu um pulo e recuou alguns passos, tossindo. “Meu Deus”, murmurou.
Ignorando a náusea, minha atenção se concentrou no baú. Era feito de nogueira escura, com uma fechadura de ferro forjado que parecia ter sido forçada, ou talvez estivesse aberta. Ao tentar levantá-lo, notei que era mais pesado do que eu esperava. Estava selado com uma camada de cera endurecida, que parecia quebradiça ao toque. Com um pouco de esforço, a cera cedeu e a tampa se abriu com um rangido.
Lá dentro, não havia ouro nem joias. Pelo menos não da forma que se esperaria. A primeira coisa que vi foi um maço de papéis amarelados, amarrado com uma fita de seda desbotada. Ao lado, um pequeno medalhão de prata, gravado com iniciais intrincadas que não consegui decifrar de imediato. E embaixo de tudo, no fundo do baú, envolto em um pano de veludo esfarrapado, jazia um punhal antigo. Sua lâmina, embora enferrujada em alguns pontos, brilhava com um fio sinistro. O que mais me impressionou não foi o punhal em si, mas o cabo: esculpido no formato da cabeça de um leão, com olhos que pareciam pequenas gemas opacas. Não era um punhal comum.
Minhas mãos tremiam enquanto eu desatava a fita de seda. Os papéis eram documentos legais, escritos à mão com uma caligrafia elaborada, quase ilegível para meus olhos modernos. Reconheci algumas palavras-chave: “Testamento”, “Última Vontade”, “Propriedade”, “Doação”. E então, em uma das páginas, um nome que me fez gelar até os ossos: “Juan Sebastián Alcázar”. Juan. Meu Juan. Mas este Juan Sebastián não era meu. O documento tinha mais de setenta anos.
O encanador, recuperando-se um pouco, aproximou-se cautelosamente. “Senhora, acho que a senhora deveria chamar a polícia. Ou um advogado.” Suas palavras soavam distantes, como se viessem de um túnel. Eu já não estava prestando atenção. Minha mente estava nos documentos, naquele nome, na adaga. O que tudo isso significava? Por que ele estava se escondendo na minha parede? E por que Juan tinha sido tão evasivo?
De repente, um ruído. A porta do quarto de Juan se abriu. Ele estava parado na entrada, com os olhos fixos no baú aberto no chão. Seu rosto pálido e magro não demonstrava surpresa, mas uma mistura de resignação e profundo medo. Ele não disse nada. Apenas olhou para mim, depois para o baú e, em seguida, para a adaga. Seu olhar se deteve no cabo em forma de leão e, por um instante, pude vislumbrar um lampejo de reconhecimento, ou algo mais sombrio, em seus olhos.
“Juan,” minha voz saiu num sussurro, “Juan, você sabe alguma coisa sobre isso?” Ele não respondeu. Seus olhos se encheram de lágrimas que não ousavam cair. O silêncio na sala era profundo, quebrado apenas pelas batidas frenéticas do meu próprio coração. O Sr. Ramirez, vendo a cena, ficou ainda mais desconfortável. “Senhora, acho que vou embora. Isso é um assunto de família.” Ele tentou se desculpar, mas eu o interrompi com um olhar. Eu precisava de uma testemunha, ou talvez apenas da presença de outro adulto.
Voltei minha atenção para Juan. “Filho, por favor, me diga o que é isso. Por que está na nossa parede? E por que esse nome… Juan Sebastián Alcázar?”
Meu filho deu um passo à frente, com as mãos cerradas em punhos. “Não é o que você pensa, mãe”, murmurou, a voz quase inaudível. “Eu… eu encontrei. Não sei como foi parar aí. Juro.” Mas sua negação soava oca, repleta de um terror que ele não conseguia esconder. A verdade pairava no ar, densa como o cheiro de decomposição. Havia algo mais. Algo que Juan não queria dizer, ou não conseguia dizer.
Peguei o medalhão de prata. Ao abri-lo, encontrei uma pequena fotografia, desbotada pelo tempo. Era o retrato de um homem. Um homem com um olhar severo, um bigode ralo e olhos que me pareciam estranhamente familiares. Senti um arrepio. Era o mesmo olhar que às vezes eu via nos olhos de Juan quando ele estava perdido em pensamentos. E então, quando eu estava prestes a perguntar a Juan se ele reconhecia o homem, meus olhos se fixaram no verso da foto. Uma inscrição, quase ilegível: “Ao meu único herdeiro, Juan Sebastián. Que a fortuna que lhe deixo lhe traga mais sabedoria do que a mim. 1948.”
O homem na foto era o Juan Sebastián Alcázar do testamento. E o testamento nomeava um herdeiro direto com o mesmo nome do meu filho. Um arrepio percorreu minha espinha. Era impossível. Uma coincidência? Não podia ser. A história estava ficando complexa demais, confusa demais. O baú, a adaga, o testamento de um desconhecido… e meu filho, Juan, parado ali, com uma expressão de culpa e pânico que gritava um segredo.
De repente, um som metálico. A adaga, que eu havia deixado no chão, deslizou, sua ponta roçando o pé de Juan. Ele deu um pulo para trás, o rosto branco como cera. “Cuidado!”, gritei, mas era tarde demais. A lâmina, apesar da ferrugem, havia causado um pequeno ferimento em seu tornozelo. Uma gota de sangue se formou em sua pele. E naquele instante, no fundo da minha mente, uma voz sussurrou uma pergunta aterradora: essa herança não seria uma bênção, mas uma maldição? E o que meu filho tinha a ver com tudo isso? O mistério do cheiro pútrido era apenas o começo.
O pequeno ferimento no tornozelo de Juan foi uma punhalada no meu coração, não apenas fisicamente, mas como uma metáfora para as feridas mais profundas que estavam se abrindo em nossa família. O Sr. Ramírez, com uma expressão de alívio mal disfarçada, finalmente se despediu, mas não sem antes insistir que eu chamasse as autoridades. Sua partida deixou um vazio, um silêncio tenso que amplificava o fedor, agora mais suportável, mas ainda presente, como um lembrete constante do que tínhamos desenterrado.
Juan se deixou cair no sofá, cobrindo o rosto com as mãos. Ajoelhei-me diante dele, o baú aberto entre nós, os documentos espalhados pelo chão. “Juan”, implorei, com a voz trêmula, “preciso que me diga a verdade. Você sabia que isso estava aqui? Quem é esse homem? E por que o testamento dele menciona você, com o mesmo nome?”
Ele levantou a cabeça, com os olhos vermelhos e inchados. “Eu não sei, mãe. Bem, sim, eu sei, mas não completamente. Eu… eu descobri há alguns meses. Eu estava brincando com meus amigos, e um deles, o Mateo, disse que tinha ouvido histórias sobre uma antiga passagem secreta nas casas desta rua. Eram só lendas, mas… eu fiquei curioso. Comecei a procurar. Um dia, enquanto batia na parede do meu quarto, bem onde o cheiro começava a ficar mais forte, senti um buraco. Usei uma faca para raspar o gesso e encontrei uma pequena escotilha de madeira. Estava lacrada, mas consegui abri-la.”
Meu coração afundou. Uma comporta? E ele não me contou nada? “Juan, por que você não me contou?”
“Eu estava com medo, mãe. Medo do que eu encontraria, medo do que você diria. Havia o rato morto, sim, a princípio não cheirava tão forte, mas depois… E dentro, o baú. A princípio pensei que fosse um tesouro de pirata, como nos livros. Abri. Vi os papéis, o medalhão, a adaga. Não entendi muita coisa. Só vi o nome: Juan Sebastián. E o sobrenome Alcázar. Eu não conhecia nenhum parente com esse nome. Mas me pareceu uma loucura. Pensei que fosse uma brincadeira, ou algo sem importância. Coloquei de volta, lacrei com fita adesiva e deixei lá. Não queria que ninguém encontrasse.”
“E o cheiro? Por que você não me disse que havia um rato morto?”
“Não queria te assustar. Achei que ele fosse embora. Mas ele piorou. E então… então comecei a ler os jornais, aos poucos, quando você não estava lá. E entendi alguma coisa. O testamento… fala de uma mansão, uma fortuna. E uma condição. Uma condição muito estranha.”
Minha mente tentava processar a avalanche de informações. Um testamento nomeando meu filho, uma mansão, uma fortuna. Seria verdade? Poderíamos ter herdado uma fortuna sem nem mesmo saber? A ideia era tão absurda quanto empolgante. Mas Juan havia mencionado uma condição.
“Qual é o seu estado, Juan?”, perguntei, minha voz quase um sussurro.
Juan olhou para o punhal e depois para o relicário. “Diz… que o herdeiro deve provar sua ‘linhagem de sangue e espírito indomável’ dentro de um ano após a descoberta do testamento. E que o teste envolve… enfrentar um desafio. E que o punhal é a ‘Chave do Leão’, que abre uma câmara secreta na mansão, onde jazem a verdadeira fortuna e os segredos da família Alcázar.”
Isso era uma loucura. Parecia saído diretamente de um romance de aventura. “Juan, isso é absurdo. Eu não acredito nessas coisas. Deve haver uma explicação lógica.”
Mas Juan balançou a cabeça. “Não, mãe. Tem mais. Depois de ler, eu me senti… diferente. Comecei a ter sonhos estranhos. Sonhos com o homem da foto, o verdadeiro Juan Sebastián. Ele me contou sobre uma traição, uma fortuna roubada, uma dívida que precisava ser cobrada. E sobre uma mulher. Uma mulher de olhos verdes que o traiu e ficou com parte da herança. E que a família dela ainda morava na mansão.”
“Uma mulher? Uma traição?” A história ficava cada vez mais sombria a cada instante. “Juan, você tem certeza de que não está imaginando coisas? Isso parece delírio.”
“Não, mãe. É verdade. E a pior parte é… depois de ler o testamento, comecei a sentir que estava sendo observada. Pequenas coisas. Ligações anônimas para casa, que desligavam quando eu atendia. Sombras na rua à noite. E um dia, há duas semanas, um homem apareceu na porta. Muito elegante, com um terno caro. Ele perguntou por ‘Juan Sebastián Alcázar’. Eu disse que não era eu, que não conhecia ninguém com esse nome. Mas o olhar dele… era frio. Como se ele soubesse. E ele tinha os mesmos olhos do homem da foto.”
Um arrepio percorreu meu corpo. Não era coincidência. Era perigo. A fortuna, a mansão, o testamento… e agora, um homem misterioso à procura do meu filho. A imagem do homem na foto estava sobreposta ao rosto de Juan. Os mesmos olhos, o mesmo queixo. Seria possível que Juan fosse, de alguma forma, descendente daquele homem?
Decidi que não conseguiríamos lidar com isso sozinhos. Liguei para meu irmão, Ricardo, um advogado com reputação impecável. Contei-lhe a história, omitindo inicialmente alguns dos detalhes mais fantásticos, como a adaga e os sonhos de Juan. Cético, mas intrigado, ele concordou em vir imediatamente.
Ricardo chegou algumas horas depois, com sua pasta de couro na mão e expressão séria. Examinou os documentos com uma lupa, sussurrando termos jurídicos. “Isto é… incomum”, disse ele finalmente, tirando os óculos. “O testamento parece legítimo, embora arcaico. E o nome do seu filho… é uma coincidência surpreendente. Mas o mais preocupante é isto.” Apontou para uma cláusula do testamento. “Se o herdeiro não cumprir a condição dentro do prazo estipulado, toda a herança passa para… a Fundação Beneficente Alcázar, administrada pelos descendentes da família Vargas.”
“Os Vargas?” perguntei, franzindo a testa.
“Sim”, disse Ricardo. “E pelo que pesquisei rapidamente, os Vargas são uma família muito influente e rica nesta cidade. E eles têm uma antiga mansão, a ‘Casa do Leão’, que dizem ter sido construída pelos Alcázars originais.”
A Casa do Leão. A adaga com cabo em forma de juba de leão. A conexão era inegável. A herança não era um simples presente; era um enigma, um desafio. E no meio de tudo isso, meu filho, um adolescente ingênuo, agora no centro de uma intriga familiar de décadas. E o prazo de um ano… Juan já havia descoberto o testamento meses atrás. O tempo estava se esgotando.
Nesse instante, a campainha tocou. Um som estridente que nos fez pular. Juan se assustou. Ricardo olhou para mim com uma sobrancelha arqueada. “Você estava esperando alguém?” Balancei a cabeça negativamente. O homem misterioso. Aquele que Juan tinha visto.
Abri a porta com cautela. Lá estava ele, um homem impecavelmente vestido com um terno de linho bege, gravata de seda e sapatos lustrados. Seus cabelos grisalhos estavam penteados para trás, seus olhos de um verde penetrante. “Boa noite”, disse ele com uma voz suave, porém firme. “Estou procurando por Juan Sebastián Alcázar. Sou o Dr. Elías Vargas, representante legal da Fundação Beneficente Alcázar. E sei que você tem algo que me pertence.” Seu olhar se deteve no baú, que ainda estava aberto na sala de estar. A tensão no ar era tão palpável que se podia cortá-la com uma adaga de leão.
O Dr. Elias Vargas deu um passo à frente, com o olhar frio e verde. Não era uma pergunta, era uma afirmação. Ele sabia que tínhamos encontrado o baú. Sabia que Juan estava lá dentro. Meu coração disparou. Ricardo, meu irmão, se colocou entre nós e o intruso. “Boa noite, Dr. Vargas. Sou Ricardo, advogado. Como posso ajudá-lo?” Sua voz era firme, profissional, uma tentativa desesperada de manter a compostura.
Elias Vargas sorriu, um sorriso frio. “Ah, um advogado. Eu esperava. Suponho que já tenham examinado o testamento do velho Juan Sebastian. E suponho que seu sobrinho, o jovem Juan, já tenha ficado sabendo da ‘condição’.” Seus olhos pousaram em Juan, que estava pálido como cera, agarrado ao sofá. “Sinto muito, rapaz. Mas essa herança não é sua. Pertence à minha família, por direito e por sangue.”
Ricardo foi ainda mais longe. “Com todo o respeito, Dr. Vargas, o testamento é claro. Nomeia Juan Sebastián como herdeiro. E meu sobrinho tem esse nome. A condição ainda não foi violada.”
“Bobagem!”, cuspiu Vargas, perdendo a compostura na voz. “Esse testamento é uma farsa, uma invenção de um velho maluco. Minha tataravó, Catalina Vargas, era a herdeira legítima. Foi ela quem cuidou do velho excêntrico em seus últimos anos, não aquele… aquele ninguém que se autodenominava ‘Juan Sebastián’ e que nem sequer era um Alcázar de verdade. A fortuna Alcázar pertence à minha família, a família Vargas. E essa ‘condição’ é uma armadilha, um jogo cruel para os incautos.”
“Uma armadilha?” perguntou Ricardo. “Explique-se.”
Vargas aproximou-se do baú, com os olhos fixos na adaga. “A ‘Chave do Leão’. Ridículo. Minha família procura essa adaga há décadas. Meu avô acreditava nessa lenda da câmara secreta. Mas é só isso, uma lenda. O velho Juan Sebastián, o verdadeiro, o fundador da fortuna, morreu sem herdeiros diretos. Esse ‘Juan Sebastián’ que fez o testamento era um primo distante, um impostor que se apropriou do nome e de uma pequena parte da fortuna. Minha família sempre soube disso.”
A história era muito mais complicada do que eu imaginava. Uma rixa familiar de gerações, uma fortuna dividida, um testamento oculto. Mas o que meu filho tinha a ver com tudo isso?
“Meu sobrinho”, disse Ricardo, “é menor de idade. E não tem nenhum parentesco conhecido com a família Alcázar.”
Vargas soltou uma risada seca. “Ah, aí está o truque. A ‘condição’ exige comprovação de linhagem. E seu sobrinho, um advogado, não é um Alcázar. Eu sei disso. Minha família investigou todos os Juan Sebastián que apareceram no registro civil nos últimos cem anos. Nenhum deles era um Alcázar legítimo. Então, o prazo passa, a condição não é cumprida e a fortuna vai para a Fundação Beneficente Alcázar. E para a minha família, por extensão.”
Mas Juan, meu Juan tranquilo, reagiu de uma maneira que eu jamais esperava. Levantou-se do sofá, com os olhos fixos em Vargas. “Você está mentindo”, disse ele, com uma voz surpreendentemente firme. “O homem da foto… o verdadeiro Juan Sebastián… falou comigo em sonhos. Disse-me que você e sua família são os traidores. Que vocês roubaram o que lhe pertencia. E que a verdadeira herança está na Câmara do Leão. E eu sei como abri-la.”
Vargas congelou, seu sorriso desaparecendo. Seu rosto se contorceu numa mistura de raiva e surpresa. “Sonhos? Que bobagem você está falando, garoto? Você está delirando.”
“Não estou delirando”, respondeu Juan, e pude ver em seus olhos uma determinação que nunca havia testemunhado antes. “Ele me disse que a adaga é a chave. E que a câmara fica no porão mais antigo da mansão. E que somente aqueles com ‘sangue de leão’ podem encontrá-la.”
Ricardo olhou para mim, perplexo. Eu estava igualmente surpreso. De onde Juan tirava tanta confiança? Seriam mesmo sonhos, ou algo mais?
Vargas recuperou a compostura, embora seu maxilar permanecesse tenso. “Isso é inaceitável. Você está tentando enganar o sistema judiciário. Eu lhe ofereço o seguinte: entregue o baú, a adaga e os documentos. Em troca, lhe darei uma quantia modesta pelo seu trabalho. Se não o fizer, processarei você por tentativa de fraude e roubo de identidade. E acredite, minha família tem os recursos para acabar com você.”
Naquele instante, Juan fez algo inesperado. Tirou a adaga do leão do baú. “Não”, disse ele, com a voz ecoando pela sala. “Esta adaga e esta herança me pertencem. E vou provar isso.”
Ricardo, com um brilho de astúcia nos olhos, interveio. “Doutor Vargas, se meu sobrinho não é um Alcázar, por que está tão preocupado? Se o título é tão inatingível, por que não esperar até o prazo final? A menos que… o senhor saiba de alguma possibilidade de meu sobrinho ser o herdeiro legítimo. Ou que a ‘Câmara do Leão’ não seja apenas uma lenda.”
Vargas empalideceu novamente. “É uma farsa”, repetiu, mas sua voz já não demonstrava a mesma convicção.
“Então, se for uma farsa”, continuou Ricardo, “vamos investigar. Se meu sobrinho provar sua linhagem e encontrar a Câmara do Leão, a herança será dele. Caso contrário, como consta no testamento, passará para a Fundação dele. Um acordo justo, não acha? Resolveremos isso no tribunal, com um mandado que nos dará acesso à mansão para procurar a Câmara do Leão.”
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